Quando lançamos um olhar atento para a nossa vida e para a vida do mundo, vemos muito mal, muito sofrimento, violência, mentira, hipocrisia e depravação. Parece que tudo se estragou e não tem mais jeito. Os problemas se avolumaram de tal maneira que temos a impressão de não haver mais solução. Mas o Senhor vem nos dizer que o Reino de Deus é Jesus. É fundamental crer que o Senhor está neste mundo como uma semente. Você não percebe, mas Ele já está fazendo novas todas as coisas. Tenha paciência, porque só o Senhor sabe o tempo do Reino de Deus, e Ele nos diz que o Seu Reino está dentro de nós, de nossa casa. Nós somos os “canteiros” de todas as coisas más. Mas, graças a Deus, não existe só o mal dentro de nós. Às vezes, podemos até chegar à conclusão errônea de que o mal está vencendo. Mas isso é só aparência, porque ele faz muito alarde. É preciso acreditar na salvação, na solução. Jesus quer transformar todo mal em bem. Até o nosso defeito e teimosia podem ser transformados em força, garra e ânimo. Deus é capaz de tudo isso.
O Senhor está em nós, transformando tudo. Você não é um caso perdido, porque o Senhor está em você, renovando todas as coisas. Acredite! O amor vencerá.
Monsenhor Jonas Abib é integrante da TV Canção Nova
Só quem passou
Marta Fernandes de Sousa Costa
Espichei o corpo na cama e a sensação de bem-estar foi indescritível. Fiquei muda, quieta, pernas espichadas, braços largados ao longo do corpo, saboreando a momentânea ausência de dor ou incômodo. Prolonguei o quanto pôde a sensação, antes de traduzi-la: que delícia não precisar mais de sonda, dreno ou soro. Poder mexer o corpo, livre de acessórios, ainda que com extremo cuidado. Acho que esbocei um sorriso meio sem ânimo, mas só por faltarem forças para gritar de alegria e pular na cama, como criança presenteada com o brinquedo dos seus sonhos. Na verdade, ainda que enfraquecida, estava feliz. Só pode entender a felicidade, em estado tão precário, quem já passou por situação semelhante. Quem nunca passou tem o direito de achar graça ou fazer pouco. As experiências assimiladas, boas ou más, sempre são benéficas. É dar um passo, transpor um portal e conhecer outras realidades. Ser enriquecido com a percepção do que outros vivenciam, muitas vezes em pior situação financeira, sem os mínimos recursos de atendimento hospitalar e cuidados familiares. Descobrir que há gente acostumada à dor constante, para quem não resta sequer a esperança de que amanhã tudo melhore. Esperança que, em certos momentos, é só o que nos segura. Como viver sem ela? E há quem viva, porque não há outro jeito. Quando se vence alguma situação com galhardia, sempre há o perigo de alguém se julgar mesmo um vencedor, diferenciado dos outros mortais, que carregam suas mazelas, a duras penas. “Se venci essa, posso vencer todas” _ acreditam alguns, mal superam uma doença, escapam de um acidente na estrada ou conseguem resolver um percalço financeiro. Por isso, não basta passar pela experiência. Por amarga e sofrida, ela só será válida se o sujeito se obrigar a pensar sobre ela, colocando-a dentro de uma realidade maior, o mundo em que todos vivem. Não vale se considerar um ser aparte, injustamente castigado pelo destino cruel _ posicionamento capaz de torná-lo ainda mais distanciado do mundo real. Em meio à euforia da vitória, é bom quando o diabinho interior consegue acender chispas de dúvida: e se faltasse isso e aquilo? E se te tornasses dependente dos cuidados mais simples? E se não tivessem paciência contigo e te atendessem mal? Se demorassem a vir, quando precisasses urinar ou desejasses te alimentar? Se o freio do carro não correspondesse? Se os credores não te dessem descanso? Que tipo de pessoa te tornarias, nessas circunstâncias? Situações absurdas e ridículas acontecem todo o dia, e tirar proveito delas pode representar a diferença entre se achar o tal ou se compreender um ser comum, sujeito a contratempos. Já vi gente elegante apurar o passo, à procura do primeiro banheiro, acometida por uma dor de barriga de causar calafrios; já ouvi pessoas mandonas moderarem o tom de voz para pedir um copo d’água, pela total dependência; já assisti ao desespero de tudo dar errado, apesar de todos os esforços. Nesses casos e em tantos outros, sobra a lição da humildade: pode acontecer comigo. Portanto, sondas, drenos e soros restauradores podem não ser tão ruins, se cumprirem a função de nos devolverem ao solo firme, onde imprevistos sempre podem acontecer. De inhapa, que nos dêem forças para resistir a todos os trancos, sem perder o ânimo e a alegria de viver.
Marta Fernandes de Sousa Costa é escritora estabelecida em Pelotas/RS
Doação de órgãos: crescimento de transplantes ainda é insuficiente
Antonio Carlos Lopes
Divulgado recentemente, o último relatório da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos traz ao mesmo tempo alegria e tristeza. Embora a taxa de doadores efetivos no último semestre tenha sido 5% superior em relação a igual período anterior, o aumento é insuficiente para reduzir as imensas filas de espera que solapam as esperanças de milhares de pessoas em todo o país. No Estado de São Paulo, com aumento de 15%, foram registradas as maiores taxas de notificação de potenciais doadores do país. Mas a efetivação destas doações ainda é pequena, não chega a 20%, quando o objetivo é atingir ao menos 50%. Aguardada por pacientes e familiares como a única saída para insuficiências orgânicas terminais ou cronicamente incapacitantes, a doação de órgãos e tecidos é um gesto simples de solidariedade, inibido, na maioria das vezes, pela absoluta falta de informação. Profissionais de saúde e demais envolvidos na retirada e no transplante dos órgãos têm se empenhado, mas ainda é preciso muito mais para prover a população das informações necessárias para estimular a doação. Um bom começo é esclarecer que não são apenas os órgãos, como coração, fígado, rins, pulmão e pâncreas, os itens passíveis de doação. Córnea, pele, osso, medula óssea e sangue de cordão umbilical são também necessários para salvar ou melhorar a vida de muitas pessoas. Em todos estes casos, a doação de órgãos de pessoas falecidas só é feita mediante autorização da família. Por isso, todos os interessados em doar seus órgãos, devem deixar a família e amigos avisados, ou preparar um documento confirmando esta vontade. Infelizmente, a autorização ou mesmo a retirada de um órgão não é garantia de um transplante. Para reduzir ao mínimo as chances de rejeição do órgão, muitos detalhes, como idade, peso e tipo sanguíneo, precisam ser inicialmente analisados, verificando a compatibilidade entre receptor e doador, a ser comprovada por meio de exame mais sensível. E nem sempre os primeiros da fila de espera são os mais compatíveis. A chance de compatibilidade aumenta com os laços familiares. Parentes próximos têm sempre mais chances de estar aptos a doar ou receber uns dos outros. Algumas doações, inclusive, podem ser feitas em vida, como as de rim, partes do fígado e medula óssea. Nestes casos, a lei permite que sejam feitas por pais, filhos, irmãos, avós, tios e primos, desde que estejam em boas condições de saúde, sejam capazes juridicamente e concordem com a cirurgia. Doações entre não-parentes podem ser analisadas e eventualmente autorizadas judicialmente. Qualquer que seja a dúvida ou imagem negativa com relação ao procedimento, deve ser discutida com seu médico de confiança. O transplante é um procedimento sério, totalmente custeado pelo Sistema Único de Saúde. Milhares de vidas dependem deste ato de solidariedade.
Antonio Carlos Lopes é presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica